7 de setembro

7 de setembro

Eu queria um barco pra ir mar adentro ao encontro da ilha que o mundo ainda não descobriu. Chego aonde a tristeza ainda não chegou. Os brutos não colonizaram a ilha. Ninguém ainda extraiu suas riquezas e fez os homens da ilha trabalharem para supostamente recuperá-las. A mentira não chegou à ilha. Não há vontade de se ter mais do que há. Nem há crenças que não estejam no nascer, crescer e morrer na ilha.

Se me perguntarem o que há além da ilha, digo: a negação de tudo. Conto que fui salvo quando ali cheguei. No deslugar da ilha, direi, pessoas se matam, desprezam umas às outras, negam a história e as leis da natureza, em nome do que imaginam ser o melhor. Não conseguirei explicar que, fora da ilha, existe uma coisa chamada “economia”, que os homens põem à frente daquilo que eles ali conhecem como “vida”. Não terei também coragem de dizer que, além da ilha, já não se pratica a noção de tribo, que agora, no além-mar, cada um é por si.

Incapazes de acessar ou entender a verdade, os homens de fora criaram mitos. E de tanto afirmarem a mitologia passaram a dizer que é ela a verdade (não a outra, a verdade mesmo). E de tanto dizer a nova “verdade”, passaram a querer queimar a antiga. E de querer queimar a antiga, passaram a desejar o mal a quem os queria alertar acerca das ilusões, pois a verdade verdadeira sempre estará ocultada atrás dos mitos.

Não permitirei que os tiranos de fora da ilha a queiram ocupar. Não deixarei que cheguem com as suas vestes e símbolos, e os pecados que inventam sobre o corpo e o prazer. Não permitirei que a ignorância arrogante invada a ilha. Não deixarei sequer que saibam de nós. Se chegam à ilha com suas armas, vão querer nos fazer parte de seu exército (ou prisioneiros dele) e, afinal, somos da paz. Se aportam nos litorais, levarão seu lixo e seu luxo, que é lixo no fim das contas…

Eu queria um barco para ir terra afora, até a ilha aonde eu não sou daqui.


Marcelo Brandão Mattos

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