Bom dia, Juliana Paes

4 de junho

Bom dia, Juliana Paes

Seu vídeo foi postado à noite, mas só agora tomei conhecimento dele porque ando me desligando intencionalmente da internet. Em parte, minhas motivações para isso combinam com as suas: também estou cansado do bilateralismo e das violências verbais que avançam na rede. Mas, diferente de você, ando mais preocupado ainda com o negacionismo, com a produção e o compartilhamento de mentiras (muitas vezes, revestidas em tom de superficialidade) que circulam e, o pior(!), nos dominam.

Elas dominam tanto, Juliana, que você nem sabe! Sim, você acabou acreditando que existe um “delírio comunista da esquerda”, sem estudar sobre a história do comunismo e sem notar que o delírio sobre uma suposta “esquerda stalinista (aí sim!) no Brasil” vem da extrema direita! Pense: quais foram os atos antidemocráticos praticados pelos governos de esquerda que tivemos na nossa história recente? Pergunte ao dono do Itaú o que ele achou da política econômica do Lula? Essa história de “caça aos comunistas” é uma estratégia antiga de criar uma cortina de fumaça para ocultar as próprias ações antidemocráticas. Veja bem e sem fumaça: Quem está caçando e agredindo os jornalistas? Quem está se apoiando na força militar? Quem indica aliados para barrar ações na justiça? Quem? Ele, sim! (Por isso, #EleNão!)

Acreditar que existem dois extremos políticos igualmente equivocados é parte do nosso problema e é a nossa maior mentira. Apenas um lado nega a ciência. Apenas um lado recusou vacinas e não incentivou o uso de máscaras e o distanciamento social nos primeiros meses (essa seria a condição para agora retomarmos as atividades profissionais e sociais com segurança). Apenas um lado reduziu verbas em pesquisa, educação e proteção ambiental (incluindo a negligência com os índios e os quilombolas). Apenas um lado desrespeitou os artistas, criando uma teoria maluca de que a lei rouanet (promulgada pelo Collor!!) era um esquema de mamatas para comprar o apoio dos artistas. Apenas um lado persegue LGBTs, discrimina mulheres e negros. Apenas um lado quer armar a população “de bem” (ui!) para ampliar o paramilitarismo que cresce neste país (num padrão venezuelano - olha aí!).

Por isso, Ju, não dá para ficar calado diante de uma médica negacionista que usa o palanque parlamentar para proferir ideais anticientíficos, como a “imunidade de rebanho da covid”, o uso de cloroquina para “tratamento precoce” e, acima de tudo, o uso político da medicina em oposição às grandes agências científicas globais. Não, ela não foi desrespeitada, ela desrespeitou o povo brasileiro. Ela apenas foi confrontada com as verdades científicas e ficou constrangida por desconhecê-las. Na qualidade de médica, ela desrespeitou a ciência e toda a racionalidade em torno dela.

Também torço pelo dia em que poderemos despolitizar os debates e voltar a confraternizar sem o bilateralismo político-partidário. Também quero voltar a defender ideias sem ter que me colocar de um lado do muro. Mas só poderemos despolitizar o debate, quando despolitizarmos a ciência, as artes, a educação, a saúde... Só poderemos descansar a militância quando os negacionistas forem afastados do pleito. Até lá, estaremos vigilantes, necessariamente do lado de cá do muro, que é onde está a ciência, a pesquisa, a dignidade humana, a liberdade de expressar-se integralmente e a liberdade de ser quem de fato se é.

Se quer um conselho, não escolha o lado nebuloso (veja o que aconteceu com a namoradinha do Brasil?), muito menos fique no alto do muro. O muro não é um lugar confortável, nem seguro. As coisas estão tão turbulentas neste ponto da Terra, que é capaz de um dia ele cair.



Marcelo Brandão Mattos

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