Facebook


9 de outubro

Em 2010, quando o filme “Facebook” estreou (aqui, com o nome “A rede social”), me lembro de ter saído do cinema chocado. Eu acabara de ver a história de um mau caráter e ninguém (ou pouca gente) parecia se importar com isso. A gente estava trocando o Orkut pela rede de Zuckerberg, no Brasil, e cheguei a pensar: “Será?”

Algumas semanas depois, assisti a uma entrevista que o criador do Facebook deu a David Letterman (que faz uma falta danada!) e o apresentador - chocado como eu - lhe perguntou:

- Você confirma tudo o que está no filme?

- Sim - ele respondeu.

- Então é verdade que você traiu e passou a perna no seu melhor amigo?

- É sim, mas paguei muito bem por isso. Ele agora está rico.

Era uma declaração ética: o dono da maior rede social do mundo não pouparia ninguém por dinheiro.

Agora, a declaração da ex-funcionária do Facebook sobre a conivência da empresa com a propagação de fakenews e discursos de ódio “por dinheiro” põe uma pedra fundamental nessa discussão. E não me surpreende. Na cultura organizacional chefiada pelo homem que vende até o melhor amigo, vale tudo, desde que as cifras justifiquem a ação.

É um modus operandi. E um recado perverso para o mundo, hoje dominado por esse canal de comunicação. Acabou o amor. E a compaixão. E a empatia. E a palavra de honra. E a fé no outro. Chegamos de volta a uma selva onde os animais comem-se uns aos outros a qualquer custo e agora pior: mesmo que não tenham fome. Em troca, acumulam riquezas que não serão capazes de construir novos mundos, reatar relações, preencher um vazio existencial que se aprofunda inexoravelmente.

Nestes tempos selvagens, todo aquele que cede, abdica e divide é uma ameaça. O socialismo voltou a ser demonizado (quem diria! justo quando democratizou!). E os comunistas comem de novo as criancinhas. E o Papa é comunista. Jesus é comunista. A conclusão da mensagem das redes é: Fiquemos então do outro lado, aonde todos têm liberdade para dizer o que quiserem, inclusive mentiras, inclusive agressões. Aonde vamos parar?

(Você pode me dizer: Ah, mas desta forma é possível a você criticar Zuckerberg na sua própria rede. Isso não é uma vantagem? Bem…, sim, é verdade. Mas é que, afinal, falando mal dele por aqui, estou ajudando-o a se tornar ainda mais rico. E não é isso que importa?)


Marcelo Brandão Mattos


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